segunda-feira, 7 de abril de 2014

Poesia de... Bocage (II)



Já Bocage não sou!... À cova escura
(Ditado entre as agonias do seu trânsito final)


Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

(Bocage – 1765-1805)




Os sinais da doença que acabou por vitimar Bocage começaram a manifestar-se no início de 1804. Debilitado, o poeta foi perdendo o alento pelo trabalho. Aos 40 anos, a 21 de dezembro de 1805, morreu na casa onde vivia, em Lisboa.

Segundo o biógrafo Gomes Monteiro, foi em 1804 que Bocage começou a sentir os primeiros sintomas da doença que o levaria a uma morte precoce. Supõe-se que o poeta começasse a sentir fortes dores de cabeça e não tivesse a mesma desenvoltura para percorrer as ruas do Chiado e do Bairro Alto.

O seu médico, Manuel Joaquim de Oliveira, não demonstrava qualquer esperança numa cura. Talvez os primeiros sinais da doença estivessem já relacionados com a semana que Bocage passou, em 1799, no Hospital Real de São José, sem indicação sobre os motivos do internamento.

Em 1804, o rasto de Bocage perdeu-se, talvez devido ao desalento provocado pela doença, um aneurisma nas carótidas. Só voltou a ser falado no início do ano seguinte, quando foi levada à cena, no Teatro do Salitre, o drama para música “A Virtude Laureada”, escrito pelo poeta.
Esta peça – em que as personagens eram entidades alegóricas, como a Ciência, a Libertinagem, a Polícia e o Génio Lusitano – terá sido encomendada a Bocage por Pina Manique, também doente na altura. No entanto, já sem o poder de outrora e preocupado em manter o cargo de intendente que ainda ocupava, Pina Manique, confrontado com o conteúdo da peça, mandou-a retirar de cena, a 14 de janeiro.



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