O "Foguetão – Semanário juvenil para o ano 2000" foi uma revista infantil e juvenil portuguesa publicada pela primeira vez em 4 de Maio de 1961 pela Empresa Nacional de Publicidade e teve apenas um trimestre de existência.
Vem isto a propósito de este Semanário Juvenil ter levado acabo um “Inquérito”, junto dos adolescentes de então, sobre como seria “O mundo no ano 2000”.
Foram muitos os adolescentes que escreveram ao “Foguetão” e este escriba não foi excepção, tendo (sabe-se lá porquê) sido contemplado com a transcrição da sua (minha) carta em que deu largas à imaginação.
Hoje, muitos anos depois, não posso deixar de sorrir perante a imaginação daquele escrito altamente influenciado pelos livros de ficção ciêntifica da Colecção Argonauta que lia às dezenas. Contudo, permito-me realçar as preocupações que transparecem no texto:
A EDUCAÇÃO (referida na abordagem às escolas), a FOME (na aposta de libertação da maior quantidade de terrenos para a agrícultura) e na PAZ (através do controle de armamento).
Estas preocupações, talvez colocadas de uma forma não muito consciente, são, 65 anos depois, actualissimas, só tendo faltado abordar a questão da saúde.
Transcrevo o texto publicado no “Foguetão” (ver AQUI), na página 2 do nº10 de 6 de Julho de 1961 :
“AS CIDADES SERÃO CONSTRUÍDAS SOBRE CAMADAS DE «AR ESTÁVEL»
Dirigi-me ao professor K. cientista desconhecido na Terra, mas bastante famoso em Marte, para que este, na sua qualidade de amigo, me pudesse proporcionar uma viagem, no tempo, e assim saber o que seria o ano 2000.
Eis-me no ano 2000!
A «máquina do tempo» depositara-me, invisível, numa das muitas artérias de Nova Iorque, que só lembra a antiga, na medida em que um único monumento foi conservado : A estátua da Liberdade !
Estupefacto admiro os «passeios», que assim como as «ruas», são «tapetes metálicos» que rolam. As «ruas» já não servem para carros, e apenas se diferenciam dos «passeios», por estes possuírem bancos que se movem conjuntamente com eles.
Os prédios, são de uma altura superior a vários quilómetros, e se se deseja ir do rés-do-chão ao último andar, utiliza-se o «elevador atómico». Os carros não existem na cidade.
As pessoas vestem fatos de uma única peça, feita de um tecido esponjoso, que se adapta perfeitamente ao corpo, dando-lhe uma temperatura que pode ser modificada, consoante o desejo do possuidor.
Ao longe. avisto um edifício que me atrai pela sua grandeza.
Deixo-me conduzir pelo «tapete rolante» que constitui o «passeio» e entro no edifício, que é uma escola.
A escola está dividida em vários pavimentos. Cada pavimento é formado por uma sala cheia de máquinas semelhantes às que em 1961 servem para tirar micro-radiografias.
É o invento em que todos os estudantes de 1961 pensam. «A máquina das Ideias». São introduzidos na máquina, por meio de «foto-gravações» todos os conhecimentos adquiridos até aquele momento. O indivíduo, sempre que quer, geralmente de ano em ano, introduz-se na máquina e esta, por meio de «telepatia», transmite-lhe todos os conhecimentos das «foto-gravações». Deste modo, ninguém se pode considerar o mais inteligente.
Contudo, de todas as maravilhas que a ciência do ano 2000 me pode proporcionar, há uma que só bastante tarde noto:
- A cidade encontra-se estacionada no ar!!!
Sim! Como são necessários terrenos para culturas, as cidades tiverem de ser construídas sobre camadas de «ar estável», para a agricultura se poder efectuar, ainda que por processos ultra-modernos. À cidade estava também coberta por uma cápsula, transparente e construída com um material indestrutível, mas que permitia a passagem de ar e e de todos os veículos, pessoas e objectos, não bélicos. Desta maneira está assegurada a paz mundial.
Sob a cidade, «lâmpadas artificiais» alimentadas por geradores atómicas, substituem o Sol, tão necessário às plantas, para a sua produção de clorofila. Assim, graças a estas lâmpadas, é possível a reprodução do mundo vegetal, que sem elas morreria, pois os raios solares não conseguem atravessar a cidade e por conseguinte chegar ao solo.
É a altura de regressar, para relatar ao «Foguetão» parte do que vi!”

