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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

PISAR OS GENITAIS DÁ SORTE



PISAR OS GENITAIS DÁ SORTE

(Crónicas de Itália)


Quando no passado dia 12 de Julho de 2016 cheguei à Área de Serviço de Milão, vindo de Bergamo, passando por Monza e depois de praticamente atravesar quase toda a cidade de Milão, não esperava ficar a uns 10 quilómetros do centro histórico desta cidade do norte de Itália. Contudo, por sorte (ou por quer que seja) uma paragem de autocarro encontrava-se a menos de 50 metros da entrada da Área de Serviço com ligação a um electrico que nos transportava a menos de 50 metros da Catedral de Milão. Tudo em menos de 30 minutos e com intervalos de 20 minutos entre cada autocarro.

Também por sorte (ou por quer que seja) um casal de turistas franceses, que se encontravam na Área de Serviço, ofereceu-nos dois bilhetes, com uma validade de 24 horas, de que já não necessitavam obviamente.

Tinha visitado Milão uns 35 anos atrás e fiquei surpreendido com o movimento das ruas e, muito principalmente, com a enorme quantidade de turistas que circulavam. Também ali, como em quase todas as grandes cidades italianas, polícias e militares ostensivamente armados controlavam as entradas nos monumentos, nomeadamente na Catedral.

Posta de parte a ideia de revisitar a Catedral, (pois bichas monumentais formavam-se só para adquirir os bilhetes de ingresso), optámos por percorrer a Galleria Vittorio Emanuele II (il Salotto di Milano) com entrada pela Piazza del Duomo e que desemboca na Piazza della Scala onde se encontra o mundialmente célebre Teatro alla Scala.

A Galleria Vittorio Emanuele II, inaugurada em 1878, contém luxuosas lojas e restaurantes e foi o primeiro edifício em Itália a utilizar o metal e o vidro como estrutura, O chão está decorado com mosaicos e no centro octogonal do edifício encontra-se um mosaico com um dos signos do Zodíaco: o Touro.

Para meu espanto vi muitas pessoas a rodearem o mosaico representando o signo do Touro, tirando fotos e esperando a sua vez para pisarem, para calcarem os “tomates” do Touro. Segundo posteriormente vim a saber esta prática de pisar os genitais do touro tem como finalidade atrair a sorte.

Poderemos dizer que as pessoas participam nestas práticas apenas por brincadeira?! Não existirão nestas práticas reminiscências de um passado não muito distante que ainda nos influencia irracionalmente?


NOTA: Superstições são, por definição, não fundamentadas em verificação de qualquer espécie. Elas podem estar baseadas em tradições populares, normalmente relacionadas com o pensamento mágico. O supersticioso acredita que certas ações (voluntárias ou não) tais como rezas, curas, conjuros, feitiços, maldições ou outros rituais, podem influenciar de maneira transcendental a sua vida.
(Wikipédia - A enciclopédia livre)


(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pisa e os Galhardetes




PISA e os GALHARDETES

(Crónicas de Itália)



Ao chegar a Pisa, ainda antes de almoço, nem precisava de recorrer ao GPS para encontrar a Área de Serviço, pois que as placas informativas eram suficientemente esclarecedoras da localização da mesma.

A Área de Serviço encontra-se um pouco distante do centro histórico de Pisa, contudo, a menos de 25 metros, uma paragem de autocarros prometia e permitiu um transporte público bastante cómodo.

A instalação da autocaravana na Área de Serviço foi rápida e eficientemente acompanhada por um homem de uns 60 anos que me pareceu conhecedor e que me deu todos os esclarecimentos que lhe solicitei. Na pequena e modesta recepção encontravam-se diversos objectos alusivos ao autocaravanismo, nomeadamente galhardetes e autocolantes, recordações de visitantes e de associações autocaravanistas que por ali passavam e pernoitavam.

Tendo em meu poder um galhardete do Clube Português de Autocaravanas (actual Associação Autocaravanista de Portugal – CPA) fiz questão de o oferecer para ser colocado junto de outros pendurados nas paredes da recepção. Aceite a minha oferta, com simpatia, de imediato me retribuíram com um galhardete do proprietário e/ou gestor daquele espaço: Associazione Camperisti Pisani. (ver AQUI).




Reflecti, então…

...como seria desejável que as autarquias em Portugal iniciassem uma política de apoio ao autocaravanismo, em colaboração com as associações sem fins lucrativos essencialmente vocacionadas para a modalidade.

...como seria útil para a divulgação do CPA que os respectivos associados deixassem nos locais de passagem ou estadia de autocaravanistas, para afixação, galhardetes ou autocolantes que seriam trocados por outros identificativos desses locais.



(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Pagar multas em Modena



Pagar multas em Modena

(Crónicas de Itália)


Cerca de 80 quilómetros depois de sair de Bolonha cheguei a Modena, terra natal de Luciano Pavarotti.

A Área de Serviço de Modena localizava-se a uns 15 quilómetros do centro histórico pelo que decidi procurar um local para estacionar a autocaravana o mais perto possível da Catedral e da Torre Ghirlandina. Consegui estacionar a uns  700 metros, numa rua discreta. A autocaravana ficou perfeitamente estacionada, dentro dos limites das marcações no pavimento e sem qualquer sinal de proibição visível.

Deslocá-mo-nos a pé para o centro histórico e por lá circulámos umas duas horas, após o que regressámos ao local onde a Autocaravanas estava estacionada.

Surpresa! No pára-brisas estava colocado o aviso de que era multado em 41 euros porque, se bem compreendi o texto em italiano, não tinha adquirido no parquímetro um bilhete que me permitia estacionar naquele lugar.

Na rua onde a autocaravana estava estacionada não existia nenhum parquímetro e só vim a descobrir um, escondido entre vários carros, numa praça onde a rua confluía. Na realidade, em todos os locais onde, no estrangeiro, estaciono, cumpro rigorosamente as regras estabelecidas. Mesmo que estacione por um curto espaço de tempo ou que não saia da autocaravana, não deixo de adquirir o respectivo título que me confere o direito a estacionar.

Como já eram quase 18 horas resolvi rumar à Área de Serviço que, como já referi, ficava a uns 15 quilómetros do local em que estava estacionado.

Na Área de Serviço solicitei que me informassem onde poderia pagar a multa e, para espanto meu, não sabiam. Aliás, pareceu-me que até estavam a estranhar este meu propósito de pagar uma multa.

Tanto quanto sei desde 1 de Março de 2014 em Portugal está em vigor a Lei 4/2014 de 7 de Fevereiro que estabelece as regras aplicáveis aos veículos matriculados num país da União Europeia e que cometam infracções de trânsito noutro país também da União Europeia. Lei que não faz mais do que transpor para o ordemamento jurídico português a Directiva da União Europeia 2011/82/EU de 25 de Outubro.

Contudo, a Lei que atrás cito não se aplica a infracções por estacionamento indevido. São apenas 8 as infracções aplicáveis que se cometidas no estrangeiro por um veículo matriculado em Portugal poderão ser sancionadas: 
  • Violação dos limites máximos de velocidade; 
  • Não utilização ou utilização incorrecta do cinto de segurança, pelo condutor e passageiros, bem como de outros sistemas de retenção obrigatórios para crianças; 
  • Desrespeito da obrigação de parar imposta pela luz vermelha de regulação de trânsito, bem como o desrespeito ao sinal regulamentar de paragem das autoridades com competência para regular e fiscalizar o trânsito e ainda da indicação dada pelo sinal de cedência de passagem B2 — paragem obrigatória na intersecção; 
  • Condução em estado de embriaguez ou sob influência de álcool; 
  • Condução sob a influência de estupefacientes, substâncias psicotrópicas ou produtos com efeito análogo perturbadores da aptidão física, mental ou psicológica; 
  • Não utilização ou utilização incorrecta de capacete de modelo oficialmente aprovado, por parte dos condutores e passageiros de ciclomotores, motociclos com ou sem carro lateral, triciclos e quadriciclos, desde que estes veículos não estejam providos de caixa rígida, ou que não possuam, simultaneamente, estrutura de protecção rígida e cintos de segurança; 
  • Circulação indevida em vias reservadas, corredores de circulação, pistas especiais, bermas e vias de trânsito suprimidas; 
  • Utilização ou manuseamento continuado de qualquer tipo de equipamento ou aparelho suscetível de prejudicar a condução, designadamente auscultadores sonoros e aparelhos radio-telefónicos.
Não estava, pois, abrangido por nenhuma das infracções referidas na Lei 4/2014 de 7 de Fevereiro, pelo que se não pagasse a multa a mesma não me seria remetida para Portugal, mas, mesmo assim, decidi pagá-la

No dia seguinte, com o auxílio do meu GPS, segui de autocaravana para a sede da polícia em Modena, que fica distante da Área de Serviço uns 10 quilómetros e consegui estacionar com relativa facilidade. Nesse departamento policial disseram-me que não aceitavam o pagamento da multa. Perguntei, então, onde a poderia pagar e se tinham um endereço. Com alguma dificuldade (não deve haver muita gente a querer pagar multas) deram-me uma morada.

O local que me indicaram ficava numa ponta da cidade de Modena, a uns 13 quilómetros dali, para onde me dirigi e, chegado que fui, não tendo outro local para estacionar, entrei no Parque de Estacionamento, vedado, dessa outra sede da polícia, onde imobilizei a autocaravana perante o olhar admirado de alguns polícias. Depois de aguardar pacientemente que me chamassem lá expliquei o que pretendia a uma senhora, polícia, que me informou que também ali não recebiam o pagamento de multas pelo que me devia dirigir a um outro departamento, dando-me o nome de uma Praça onde podía encontrá-lo.

Essa outra Praça ficava noutra ponta da cidade, a uns 18 quilómetros do local onde me encontrava. Nesse outro local estacionei num Parque tendo obtido o respectivo bilhete num Parquímetro bem visível. Depois, durante uns 20 minutos, procurei saber onde a multa poderia ser paga e… FINALMENTE, encontrei o local. Dessa vez tive sorte. Era ali mesmo. E, por pagar a multa no prazo de 5 dias, que era de 41 euros, fizeram-me um desconto e só paguei 28 euros e 70 cêntimos.

CONCLUINDO: A cidade de Modena criou-me obstáculos para que não liquidasse a multa, mas não o conseguiu. Eu, é que consegui impor a minha férrea vontade e obrigá-los a receber a multa. Um autocaravanista não desiste! E Modena ficou a sabe-lo.



(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Afirma Pereira (Crónicas de Itália)



AFIRMA PEREIRA 

(Crónicas de Itália)



A caminho de Matera não supunha que passados menos de três meses estaria a ler “AFIRMA PEREIRA”.

Principio por esclarecer que Matera é uma localidade do sul de Itália situada no topo de uma ravina e com o Bairro de Sassi classificado como Património Mundial pela UNESCO em muito devido às casas escavadas nas rochas que foram um refúgio de monges bizantinos.

Ao invés de me dirigir directamente à vila optei por seguir para a Área de Serviço que se localiza a uns 5 quilómetros de Matera, em linha recta, percorrendo a “Strada Panoramica dei Sassi” que termina (?) num promontório onde se tem uma vista maravilhosa e onde acabei por almoçar. Antes, porém, fiz escala na Área de Serviço, localizada num cabeço e apoiada por um posto de turismo.

Na Área de Serviço entrámos numa casa terrea, acolhedora e fomos recebidos por um jovem adulto italiano que, quando soube que eramos portugueses, logo nos informou que adorava Portugal (que já tinha visitado) e que esse gosto provinha de ter assistido anos antes em Matera a um colóquio promovido por um escritor italiano residente em Portugal.

O nosso anfitrião referia-se a Antonio Tabucchi, nascido em 1943 em Pisa e falecido em 2012 em Lisboa. Itáliano por nascimento tinha desde 2004 a nacionalidade portuguesa. Em 1994 escreveu “Sostiene Pereira” ("AFIRMA PEREIRA") que se tornou um símbolo da defesa da liberdade de informação e que retrata uma Lisboa salazarista oprimida pela censura, pela polícia política e pelo medo.

O acaso (ou o que lhe queiram chamar) fez-me deparar, quando em finais de Julho regressei a Portugal e vagueava entre os livros de uma pequena loja, com a obra de Antonio Tabucchi: "AFIRMA PEREIRA".

Comprei o livro, li-o e gostei.

Em “AFIRMA PEREIRA” não existem conclusões. Aqui também não. Compete ao leitor reflectir. E se alguma reflexão aqui se pode fazer enquadra-se na opção que fiz de ir a Matera, de me encontrar por acaso com um italiano apaixonado por Portugal, que conheceu também por acaso um escritor, também ele amante do nosso país e que, também por acaso, me fez encontrar um dos melhores romances de Antonio Tabucchi.

Não fora o autocaravanismo e “AFIRMA PEREIRA” seria para mim uma obra desconhecida.




(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

OFTALMOLOGISTAS PRECISAM-SE




OFTALMOLOGISTAS PRECISAM-SE
                                                                                                                                                  
(Crónicas de Itália)


A península itálica e a Sicília são regiões de uma superior profundidade cultural e histórica, além, sobretudo, de uma grande beleza paisagística. Viajar em autocaravana permite um melhor e maior conhecimento das pessoas e, consequentemente registar, também, as idiossincrasias de alguns grupos.

Nas minhas deslocações procuro, tanto quanto possível, não utilizar autoestradas e, muito menos, as que são pagas. A península itálica e a Sicília não foram excepções, pelo que me apercebi do estado em que se encontravam as estradas, do absurdo de alguma sinalização rodoviária e dos problemas com que os condutores se deparam.

Um dos problemas, deduzo, tem a ver com uma esquisita deficiência visual da maioria dos condutores que circulam naquelas regiões, muito particularmente nas estradas localizadas ao sul de Roma. Uma doença que possivelmente se verifica noutras partes do mundo, mas que na península itálica e na Sicília tem uma acuidade que urge divulgar.

Constatei quando ao volante da minha autocaravana circulava à velocidade máxima permitida (normalmente 90 quilómetros à hora), em estradas marcadas com um traço contínuo (o que proibe a ultrapassagem do veículo que segue à nossa frente), que os condutores italianos me ultrapassavam. Verifiquei, igualmente, que esse comportamento não tinha lugar apenas comigo, o que poderia pressupor, se assim fosse, qualquer animosidade com cidadãos estrangeiros.

Esse desrespeito pelo código da estrada era, tanto quanto me apercebi, encarado como algo de normal, pelo que, não acreditando que os condutores italianos sejam maioritariamente “loucos”, só podia haver uma explicação:

Os condutores italianos não vêem os traços contínuos marcados nos pavimentos das estradas.

Como é sabido é com os olhos que as imagens são recepcionadas e através de “impulsos eléctricos” que chegam ao cérebro onde são analisados e descodificados. No caso dos condutores italianos o problema ou está na origem (no olho) ou no local onde a imagem é interpretada (no cérebro). No entanto, os condutores italianos, quando deixam de o ser, quando não conduzem, vêm perfeitamente os traços contínuos. Um mistério!

É necessário que profissionais especializados se desloquem para a fonte da epidemia, para a estudar e conter, pois não podemos permitir que saia da península itálica e que contagie os cidadãos de outros países. Aliás, em Portugal, já existem alguns condutores contagiados. Felizmente que ainda são poucos.


(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

QUEM PROIBIU A ENTRADA?



QUEM PROIBIU A ENTRADA?

(Crónicas de Itália)


Em Roma ficámos numa Área de Serviço localizada perto de transportes públicos para o centro da cidade.

Já conhecíamos Roma de duas ou três visitas anteriores, mas não quisemos deixar de a percorrer de novo e de novo voltar ao Vaticano, mais especificamente à Basílica de São Pedro.

Encontrámos em Roma (e não só) polícias e militares ostensivamente armados e constatámos que a entrada nos monumentos mais “populares” era precedida de medidas de segurança muito apertadas. Nas entradas formavam-se longas e compactas bichas (vocábulo que prefiro a filas), sob um sol intenso, o que nos demoveu de voltar a visitar esses monumentos.

Quando entrámos no Vaticano deparamos na enorme praça frontal à Basílica de São Pedro dividida com grades amovíveis de madeira o que lhe retirava a beleza do impacto visual que se tem ao aceder ao local.

O Vaticano é um estado soberano desde 1929 (Tratado de Latrão) governado por um monarca absoluto (o Papa) situação única na Europa.

Para acedermos à Basílica de São Pedro tivemos de esperar numa monstruosa bicha durante mais de duas horas sob um sol escaldante. Quando por fim passámos no portal com detectores de metais e os sacos nos foram entregues, depois de retirados do tapete rolante do aparelho de raios X, seguimos pelos claustros que rodeiam a praça frontal à Basílica em direcção à mesma.

Caminhávamos calmamente quando, de súbito, um jovem vestido com um fato escuro, de camisa branca sobre a qual se realçava uma gravata escura, saiu-nos ao caminho e, abrindo totalmente os braços, como se estivesse a ser crucificado, impediu a minha mulher (e apenas ela) de prosseguir.

O motivo pelo qual estava proibida de prosseguir relacionava-se com a (in)decência do vestuário, mais especificamente da blusa. Na altura vestia uma blusa quase sem decote e sem mangas, indumentária apropriada para um dia de intenso calor, mas… pouco condizente, na apreciação do vigilante dos bons costumes, com aquele lugar sagrado.

Dois ateus  acabavam de ser proibidos de entrar (eu por solidariedade) na Basílica de São Pedro.

Uma jovem que estava por perto, também com uma blusa sem mangas e que aparentemente também tinha sido proibida de entrar, dirigiu-se-nos, talvez procurando solidariedade, a protestar pelo impedimento e argumentando que todos nascíamos nus e que deus não queria aquele tipo de proibições que afastavam as pessoas da igreja. Como não sabíamos o que deus queria não lhe respondemos e afastá-mo-nos, saindo do Vaticano.

Não refutámos a proibição de entrar na basílica por considerarmos que era-mos estrangeiros, que a Basílica de São Pedro era propriedade do Vaticano e que as leis ou regras ali existentes, da responsabilidade de um monarca absoluto, não eram, por tudo isto, contestáveis. No entanto, não posso deixar de condenar a pouca ou nenhuma consideração que naquele estado soberano (o Vaticano) têm pelas pessoas, deixando-as em bichas de mais de 2 horas, em condições deploráveis, sem que tenham a preocupação de afixar, de forma bem visível, cartazes informando qual a indumentária que não podem usar para acederem aonde quer que seja.

A título de curiosidade permito-me referir que na Sicília, numa igreja cuja entrada era paga, uma funcionária (?) distribuía capas de pano às senhoras que trajavam de uma forma que ela consideraria menos apropriada. Ou seja, encontraram uma forma inteligente de não perderem clientes.

Em mais nenhum outro local fomos proibidos de entrar.



(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

FOGO: EXPERIÊNCIA TURÍSTICA

Foto do “Circuito Mato Grosso”

FOGO: EXPERIÊNCIA TURÍSTICA

(Crónicas de Itália)


O calor era intenso. Com os vidros da autocaravana abertos sentia no rosto um “ardor” e o fumo, bem como alguma fuligem, dificultava-me a visão e a respiração. Com os vidros fechados suava abundantemente.

Nos lados da estrada que me levaria a Cefalu (Sicília), vindo de Palermo, pequenas árvores em chamas tornavam o ambiente muitíssimo pouco acolhedor e quando algumas das árvores e arbustos em chamas tombavam sobre a estreita estrada obrigavam-me a diminuir a velocidade e avançar em ziguezague. Não sendo adepto de desportos automobilísticos aquela gincana não programada fazia com que surgisse em mim o desejo e a necessidade de regressar à segurança de Palermo de onde saíra há menos de uma hora.

O objectivo turístico à saída de Palermo era continuar a contornar a ilha, como o vinha fazendo, seguindo pela costa do “Mare Tirreno”, passando e visitando Cefalu e Milazzo, até atingir Messina, onde, de Ferry, atravessaria o estreito do mesmo nome, regressando à Península Itálica. À entrada de Cefalu o fumo era de tal forma espesso que não havia visibilidade além de uns 10 metros. Agentes da autoridade só permitiam a passagem de quem se dirigia para Cefalu. Decidi, então, não avançar e regressar a Palermo, fazendo inversão de marcha.

A intenção de retornar a Palermo mostrou-se também difícil. Desconhecendo as estradas e guiando-me apenas pelo GPS, era obrigado pelos agentes da autoridade a alterar constantemente a rota, pois havia estradas bloqueadas.

Quando já me encontrava a alguns quilómetros de Palermo, na estrada, a uns 50 metros na minha frente, erguia-se uma parede de fumo através da qual algumas viaturas se atreviam a passar e logo desapareciam como que engolidas. Outros carros encostavam na berma e ficavam a aguardar. Segui-lhes o exemplo. Passado algum tempo tentei outro caminho e de novo fui barrado por agentes da autoridade que me indicavam percursos que conduziam a outros desvios, e a outros, e a outros... Tive a nítida sensação que andava em círculos.

Em determinado momento, com um intenso calor e fumo espesso a rodear-me, vi um painel indicando a direcção de Catânia, que se situa no lado oposto da ilha em relação àquele em que me encontrava. Parei, consultei o mapa e verifiquei que tinha que atravessar toda a ilha, passando por Enna (que já tinha visitado) para atingir Catânia. Em Catânia, pensei, seguiria para norte, junto à costa e, percorrendo em sentido inverso uma rota que também já tinha feito, chegaria a Messina. Foi o que fiz.

Esta experiência fez-me reflectir sobre os incêndios em Portugal e o trabalho voluntário dos Bombeiros:

Primeiro reflecti na falta de apoios que obrigam as Corporações de Bombeiros a pedir “esmola”, fazer “rifas”, para que possam continuar a ajudar as comunidades em que se inserem;

Depois pensei nas pessoas que se insurgem contra os Bombeiros por demorarem no socorro mais do que (na opinião delas) deveriam, mas que não são sócias de nenhuma a Associação de Bombeiros; pessoas que exigem, que condenam a falta de apoios estatais aos Bombeiros, que a eles (Bombeiros) recorrem em momentos de aflição, mas que não estão disponíveis para pagar uma quotização equivalente a dois ou três cafés por mês.

O Movimento Autocaravanista de Portugal, através das associações autocaravanistas, poderia lançar junto de todos os autocaravanistas, até ao próximo dia 26 de Maio (Dia Nacional do Bombeiro), uma campanha de sensibilização subordinada ao lema:

SOU AUTOCARAVANISTA – APOIO OS BOMBEIROS


Mesmo que as associações autocaravanistas nada façam, cada um de nós, cada autocaravanista, por si mesmo, pode inscrever-se como sócio da Associação de Bombeiros mais próxima da localidade onde reside.


(O autor, todas as Quintas-feiras, no Blogue do Papa Léguas Portugal, emite uma opinião sobre assuntos relacionados com o autocaravanismo (e não só) - AQUI)