terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

A MULHER DA BANHA DA COBRA

 


A Mulher da Banha da Cobra

HISTÓRIAS DE ANTANHO

(História número 3)


Introdução Permanente


No período compreendido entre 1945 e 1968 a cidade de Lisboa era bem diferente dos tempos de agora.


A relativamente pouca distância do centro da cidade de Lisboa, ficava o Martim Moniz, bem diferente do atual e a partir do qual se iniciava a Rua da Palma, logo continuada pela Avenida Almirante Reis, paralela à Rua do Benformoso que, por sua vez, terminava no Largo do Intendente, onde começava a Rua dos Anjos que atravessava a Avenida Almirante Reis e terminava no Largo de Santa Bárbara.


Este era o espaço (onde vivi) e as HISTÓRIAS DE ANTANHO se irão essencialmente localizar e a partir do qual outros espaços irão ser referidos no contexto de um ambiente humano muito peculiar.


A MULHER DA BANHA DA COBRA


Largo do Intendente - Lisboa


No "LARGO DO INTENDENTE" uma água sulfatada calcária alimenta um bebedouro, junto ao qual, periodicamente, uma mulher cinquentenária, de cabelos hirsutos, desgrenhados, de pé sobre um caixote de madeira, se dirigia ao povo que afluía para a ouvir.


                                    Cerâmica Viúva Lamego - Largo Intendente - Lisboa

Um pouco afastados, os Moços de Fretes, parados estrategicamente junto das carroças e das poucas caminhetas que aguardavam ser contratadas e, também, por perto da Cerâmica Viúva Lamego, esperavam ser “alugados” para algum carrego ou mudança, já não ligavam ao que a mulher dizia de tão frequentemente a ouvirem.


Moços de Fretes - Lisboa


(Moços de Fretes, também conhecidos como galegos, tinham como actividade transportar às costas ou em padiolas, todo o tipo de cargas. Providenciavam também o transporte de mobílias de casa para casa acondicionando-as em carroças ou caminhetas.)



A Mulher da Banha da Cobra

Do cimo do seu caixote de madeira a Mulher da Banha da Cobra usava os seus dotes de propagandista para juntar as pessoas em seu redor e mantê-las atentas e interessadas. Depois, com as atenções já captadas, oferecia-lhes o famoso Bálsamo, a milagrosa Pomada, o fantástico Unguento ou, mais prosaicamente, a Massa de Curandeiro. Resumindo: A Banha da Cobra.


(Banha da Cobra: Era feita, quando o era, a partir de teriaga, uma exótica mistura de plantas medicinais com ópio e carne de cobra)


Esta pomada, assegurava a Mulher da Banha da Cobra, curava tudo e mais alguma coisa. Desde calos a pneumonias, de infertilidades a impotências, de dores de cabeça a faltas de apetite.


A Mulher da Banha da Cobra, depois de relatar as virtudes do produto e dar múltiplos “exemplos” de curas milagrosas e considerar que os ouvintes estavam “conquistados”, avançava para a venda propriamente dita.


O produto (dizia ela) era vendido quase gratuitamente… era, dizia com veemência, oferecido, porque só queria o bem de todos. O preço, esclarecia, não comprava uma só caixa de unguento, mas duas e, ainda, aos primeiros 20 compradores, pelo mesmíssimo preço, ainda oferecia uma outra caixa. Três caixas de pomada pelo preço de uma, dizia naquele tom de voz próprios dos feirantes. Só o fazia (continuava ela a proclamar), por gostar daquele bairro e das pessoas que ali viviam pois quase não ganhava nada ao “dar” 3 caixas pelo preço de uma. Mas, há mais, gritava a plenos pulmões a Mulher da Banha da Cobra: com as três caixas ainda oferecia um pente especial para o fortalecimento do cabelo, um pano único para uma boa aplicação da pomada e, ainda, a imagem do Dr. Sousa Martins, para que do além lhe garantisse a cura.


Sousa Martins - Campo Santana - Lisboa

(As capacidades de curas miraculosas, que foram atribuídas ao Dr. Sousa Martins ainda em vida, estendem-se para além da sua morte. Sendo chamado a intervir, como se de um santo católico se tratasse, recebe os agradecimentos dos crentes que em datas de aniversário do seu nascimento ou morte, lhe  prestam  homenagem. Nessas ocasiões assistem-se a romarias, em Lisboa ao monumento de que falamos ou ao cemitério de Alhandra onde repousam os seus restos mortais, mantendo o culto vivo mesmo 120 anos após a sua morte a 18 de Agosto de 1897.)


Mas, nada era deixado ao acaso. Na assistência circulavam um ou dois parceiros a fingirem-se interessados e, no momento em que os basbaques pareciam hesitar e até desmobilizar, avançavam de peito feito para realizar as mobilizadoras (e fingidas) primeiras compras. Algumas vezes, enquanto compravam, falavam para os putativos compradores elogiando o produto, dizendo que não era a primeira vez que o usavam e que estavam quase curados da dor na perna, ou da tosse irritante, ou das cólicas intestinais ou de qualquer outra maleita.


E as pessoas compravam e compravam e compravam. Não só os que estavam doentes como os que se queriam prevenir de presumíveis futuras doenças. Porque, naquela época, não havia Serviço Nacional de Saúde e ir ao médico era só para ricos.


Esta técnica de vendas, não obstante ainda ser um adolescente, era fascinante.




Pavilhão das Panelas - Feira Popular - Lisboa

Recordo, então já um jovem, assistir a uma técnica semelhante na antiga Feira Popular, no Pavilhão das Panelas, onde se sorteavam conjuntos de 6 e 8 panelas de diversos tamanhos.


Presentemente a mesma técnica de vendas é usada nas televisões generalistas portuguesas.


                          Nos primórdios da Televisão - Também havia publicidade

No pequeno écran vê-se um representante do produto a apresentá-lo acolitado por algum conhecido apresentador televisivo o que, de alguma forma, dá credibilidade ao produto. Depois, não é só uma caixa desse produto que é “oferecido, mas mais duas ou três pelo mesmo preço e, ainda, oferecem uma caneca ou um copo ou qualquer outra coisa. E aos primeiros 50 que ligarem para o número “x” ainda fazem um desconto.


Não, não estou a pôr em causa a qualidade dos produtos que assim são vendidos nas televisões, mas tão somente a comparar a técnica de vendas usada antes e a usada agora. Uma técnica semelhante à que se usava há uns 60 anos, embora adaptada à realidade tecnológica e à mentalidade do presente.


A substância da técnica de vendas mantém-se idêntica à do passado; a forma como se processa, actualizou-se.



LEIA TAMBÉM (Clique no título):

COMO O MEU AVÔ SALVOU UM HOMEM (E depois se arrependeu?)

- O XÉ-XÉ



CRÉDITOS:

1ª Foto – Autor: Inteligência Artificial.

2ª Foto – Autor: Eduardo Portugal no espaço de “Lisboa de Antigamente”

3ª Foto – Autor: Desconhecido no espaço de “Ruas de Lisboa com alguma história”.

4ª Foto – Autor: Joshua Benoliel no Espaço de "Bic Laranja"

5ª Foto – Autor: Inteligência Artificial

6ª Foto – Autor: Desconhecido no espaço “Lisboa – Directório de Contactos”

7ª Foto – Autor: Mário Novais no espaço “Imagens com História da Wordpress”

8ª Foto – Autor: Desconhecido no espaço “Designe Culturetv”





terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

O XÉ-XÉ


HISTÓRIAS DE ANTANHO

(História número 2)


Introdução Permanente


No período compreendido entre 1945 e 1968 a cidade de Lisboa era bem diferente dos tempos de agora.


A relativamente pouca distância do centro da cidade de Lisboa, ficava o Martim Moniz, bem diferente do atual e a partir do qual se iniciava a Rua da Palma, logo continuada pela Avenida Almirante Reis, paralela à Rua do Benformoso que, por sua vez, terminava no Largo do Intendente, onde começava a Rua dos Anjos que atravessava a Avenida Almirante Reis e terminava no Largo de Santa Bárbara.


Este era o espaço (onde vivi) e as HISTÓRIAS DE ANTANHO se irão essencialmente localizar e a partir do qual outros espaços irão ser referidos no contexto de um ambiente humano muito peculiar.


O XÉ-XÉ


O Carnaval no mundo

Não está nas minhas intenções abordar a história do Carnaval no Mundo e desde as suas origens, contudo não será despiciente referir que para se analisar esta celebração ancestral há que tomar conhecimento com as “Origens nas festas pagãs da Antiguidade”, a “Assimilação e reinterpretação pela Igreja Católica”, a “Popularização na Europa durante a Idade Média”, a “Introdução nas Américas pelos colonizadores europeus”, a sua “Mescla com elementos de diferentes culturas”, a “Adaptação às novas realidades sociais e culturais" e a “Celebração em diferentes partes do mundo com características própriassendo, o Carnaval, mais que uma festa, uma expressão cultural rica em simbolismos.



O Carnaval em Portugal

Em Portugal o Carnaval tem início com os rituais célticos e romanos, como as Lupercais e as Saturnálias, mas com a ascensão do Cristianismo estas festas pagãs foram reinterpretadas e incorporadas no calendário religioso.


Com o surgimento da época moderna o Carnaval português começou a sofrer influências de outras culturas europeias, em que a sátira política e social se tornou um elemento importante da festa, com a utilização de disfarces e canções para criticar os poderosos.


O Carnaval português teve um período de declínio, devido a fatores como a repressão religiosa e o crescimento do movimento higienista, pois algumas  práticas carnavalescas eram vistas como insalubres ou perigosas, como, por exemplo, atirar à rua ou de janela para janela, púcaros e tachos de barro e alguidares já em desuso, além de limões-de-cheiro que mais não eram que balões enchidos com urina.


A partir de 1950 o Carnaval começou a transformar-se e surgiram os corsos e os ritmos musicais importados do Brasil e perdendo muito da espontaneidade popular.


 O Pierrot

As minhas tias, irmãs do meu pai, trabalhavam em casa como modistas.


(Modista é uma pessoa que se dedica à moda feminina, tira as medidas do corpo, corta o tecido e cria padrões, realizando sua atividade em uma pequena oficina ou então em sua própria casa. Para formar-se era necessário realizar algum tipo de curso (onde se aprendia a desenhar e as diferentes técnicas para confeccionar as peças)).


Esse seu mister levou-as a fazer-me um fato de Pierrot, teria eu uns 7 anos, para usar durante o carnaval.


(O Pierrot é o palhaço triste e na Commedia dell'Arte vivia um amor platónico por Colombina, não tendo coragem de se declarar, guardava flores e escrevia cartas e não as enviava. Por isso, é muitas vezes representado com lágrimas no rosto, uma flor ou um bilhete nas mãos; a Colombina é a amada platónica de Pierrot que foge com Arlequim, mas que, mais tarde, compreende o amor do Pierrot e volta para ele)


Esta é a minha mais antiga recordação de Carnaval e que, confesso, não gostei. Queria mascarar-me de “cowboy”, o que nunca consegui.



 O Xé-Xé

O que mais me impressionou, nesta época, também denominada “Entrudo”, teria eu ai uns dez, doze anos, foram os “Xé-Xé”, embora não fosse a única figura carnavalesca existente.


(O Xé-Xé era um mascarado que vestia um traje anterior à Revolução Industrial e que trazia numa mão uma vara com um chifre e na outra mão um facalhão de madeira. Esta figura, criada para a crítica social e para troçar dos poderosos de então,  acabou, mais as suas práticas, por ser proibida, embora essa proibição não fosse respeitada durante muito tempo.)


Da janela da minha casa, onde me encontrava, vi chegar o "Xé-Xé", acompanhado de muitos populares e de outros mascarados, nomeadamente “matrafonas” (homens vestidos de mulheres, mas com aspecto bem másculo).


Aparentemente o vinho já produzia efeitos apreciáveis naquele grupo.


(Nessa época as “brincadeiras” eram violentas. Papelinhos (confetes) que eram metidos à força na boca dos infelizes que se punham a jeito, bisnagas com urina esguinchando para a cara dos que passavam, saquinhos cheios de feijões ou grão projectados contra as cabeças e que aleijavam a sério, garrafinhas de mau cheiro (gás sulfídrico) deixadas no interior de estabelecimentos e que obrigavam a fugir para a rua, bombinhas de Carnaval (que provocavam por vezes acidentes), tric-tracs (produziam barulho e assustavam) e muitos outros.)


Então, o "Xé-Xé" da minha história escolheu um alvo, uma mulher relativamente jovem, que procurou fugir, e recitando uma qualquer cantilena o "Xé-Xé" exigia-lhe aparentemente dinheiro. A mulher procurava escapar-se, mas era impedida pelo "Xé-Xé" que a bloqueava com o corpo, com a vara e com o facalhão. Os basbaques riam-se alarvemente do medo e da impotência da mulher. Por fim, como não obtinha dinheiro, o "Xé-Xé" começou a bater com o facalhão de madeira nas nádegas da mulher que, aterrorizada, chorava de dor, de vergonha e de medo..


Já não me recordo quanto tempo durou aquele “divertimento”, mas a mulher lá conseguiu fugir. E o grupo do "Xé-Xé" lá seguiu, rua fora, tal predadores buscando outra presa para aterrorizarem.


Continuo, ainda hoje, sem saber se aquela era uma prática comum dos "Xé-Xés" ou se teria sido uma excepção, motivada, quiçá, pelo vinho.


LEIA TAMBÉM (Clique no título):

- COMO O MEU AVÔ SALVOU UM HOMEM (E depois se arrependeu?)


CRÉDITOS:

1ª Foto – Autor desconhecido.

2ª Foto – Autor: Augusto Bobone no espaço da C. M. de Lisboa

3ª Foto – Autor desconhecido no espaço de “Carnevalepegasus”.

4ª Foto - Autor: Augusto Bobone no espaço de “Lisboa de Antigamente”.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

COMO O MEU AVÔ SALVOU UM HOMEM (E depois se arrependeu?)

Regueirão dos Anjos
Foto tomada da Avenida Almirante Reis
1951


HISTÓRIAS DE ANTANHO

(História número 1)


Introdução Permanente


No período compreendido entre 1945 e 1968 a cidade de Lisboa era bem diferente dos tempos de agora.


A relativamente pouca distância do centro da cidade de Lisboa, ficava o Martim Moniz, bem diferente do atual e a partir do qual se iniciava a Rua da Palma, logo continuada pela Avenida Almirante Reis, paralela à Rua do Benformoso que, por sua vez, terminava no Largo do Intendente, onde começava a Rua dos Anjos que atravessava a Avenida Almirante Reis e terminava no Largo de Santa Bárbara.


Este era o espaço (onde vivi) e as HISTÓRIAS DE ANTANHO se irão essencialmente localizar e a partir do qual outros espaços irão ser referidos no contexto de um ambiente humano muito peculiar numa cidade como então era Lisboa.



COMO O MEU AVÔ SALVOU UM HOMEM

(E depois se arrependeu?)


O local do salvamento



Regueirão dos Anjos
Um dos arcos sobre o qual passa a Rua Álvaro Coutinho


O Regueirão dos Anjos é uma rua no seu início paralela à Rua dos Anjos que começa na Avenida Almirante Reis, passa sob 3 arcos, prossegue paralela à Rua de Arroios e termina na Rua Frei Francisco Foreiro.


Os terrenos de Arroios ficaram marcados pela ribeira de Arroios (ou regueiro dos Anjos), divididos pela colina de Santana, com solos férteis de hortas, prados, olivais e vinha. A Igreja Paroquial de Nossa Senhora dos Anjos, demolida após janeiro de 1908, situava-se num local sem movimento, tinha à esquerda da fachada um arco, que se encostava a um modesto prédio burguês. Nesse arco, estava a boca do Regueiro dos Anjos. Tudo foi demolido para a abertura da Avenida D. Amélia. Com as obras, a boca do Regueirão dos Anjos ficou abaixo do nível da antiga Avenida D. Amélia, a atual Avenida Almirante Reis. (in Junta de Freguesia de Arroios)



Regueirão dos Anjos
Ao fundo outro dos três arcos sobre o qual passa a Rua Febo Moniz


Nesse tempo de 1945 / 1950 o Regueirão dos Anjos fervilhava de atividades diversas. Desde um Canteiro (onde se trabalhavam mecanicamente grandes placas de pedras), uma Marcenaria (local de manufacturação e recuperação de móveis antigos para os quais o meu avô paterno já com uns 70 anos era frequentes vezes chamado a intervir), um Trapeiro (assim chamado por comprar e vender trapos, mas essencialmente por acumular papel que depois seguia em grandes camiões para fábricas onde era transformado em pasta de papel ou seja reciclado), uma enorme Vidraria (que semanalmente recebia enormes chapas de vidro transportadas em carroças puxadas por cavalos) e uma Serralharia (de grandes dimensões). Além da indústria referida havia ainda muitas outras pequenas oficinas e até uma Tasca (melhor dizendo, uma taberna onde se vendia vinho, petróleo, carvão e refeições muito simples).


O Regueirão dos Anjos fica pois no exato local por onde passava a Ribeira de Arroios e que foi ocupada por construções o que, em tempo de chuvas intensas, as águas seguiam para essa linha de água provocando grandes inundações.


O acidente

Essas grandes enxurradas no Regueiro dos Anos tinham o seu apogeu normalmente junto à Avenida Almirante Reis e como o Regueirão dos Anjos ficava a um nível inferior à Avenida as águas não se escoavam, formavam um autêntico lago com mais de dois metros de profundidade e subiam, por isso, à altura das portas das oficinas ou ainda mais.


Num determinado dia choveu e começaram-se a ouvir os habituais gritos de alerta: “Vem aí a água! Vem aí a água! Vem aí a cheia!


Apressadamente as portas de ferro começavam a fechar-se e os trabalhadores (e não só) abandonavam as lojas e as oficinas. Havia, no entanto o hábito (mau) de em algumas oficinas fecharem as portas e continuarem a trabalhar no interior. De referir que eram locais que não tinham outra saída que não fosse aquelas portas que ficavam, por vezes, cobertas de água.


Uma das oficinas de Canteiro ficava por debaixo da casa onde o meu avô morava e um dos trabalhadores (seria o proprietário?), não obstante o meu avô, que conhecia a intensidade das enxurradas pela experiência que lhe vinha de se aperceber das consequências da força das chuvas, o aconselhar veementemente a sair, decidiu ficar a trabalhar no interior.


E a água veio e começou a subir e o lago foi-se formando e a pressão da água foi aumentando e a porta de ferro onde no interior o homem trabalhava cedeu parcialmente e a água penetrou na oficina e foi subindo também no interior à medida que subia no exterior.


Regueirão dos Anjos 
Na imagem vê-se a porta que cedeu sob a janela onde 4 pessoas olham a cheia
1949


Na casa do meu avô, vindo do chão, começaram a ouvir os gritos desesperadamente aflitivos do homem implorando que o salvassem.


O homem ia morrer afogado se a água continuasse a subir como tudo parecia indicar. Não havia escapatória, pois a porta tinha cedido o suficiente para que a água entrasse, mas não o suficiente para permitir a saída de uma pessoa, mesmo que nadando debaixo de água.


O salvamento

Os gritos continuavam cada vez mais desesperados. O homem tinha consciência que ia morrer afogado.


O meu avô era um homem alto e de uma enorme força. Aquilo a que deitasse mão já não largava. Talvez devido à sua profissão (não sei!) tinha na sua casa uma marreta e decidiu usá-la para rebentar o chão da sua casa, abrir um buraco e fazer sair por aí o homem. Isto também só foi possível porque os andares não eram separados por placas de cimento armado.


Com grande esforço o meu avô rebentou o chão, criou um buraco suficientemente largo para retirar o homem. Segundo o meu pai o homem já só tinha a cabeça fora de água e a água continuava a subir. Quando o puxaram viram que o homem estava branco como a cal e que ficou mudo e quedo por muitas horas.


A minha avó deu a beber ao homem uma chávena de chá. (Naquela casa o chá era bebida de eleição por motivos que mais tarde poderei, se para tanto tiver oportunidade, explicar).


E as águas acabaram por descer engolidas lentamente pelo esgoto e o homem foi à sua vida.


A recompensa

O meu avô não era, nunca foi, um homem rico. Era pobre. Vivia exclusivamente do seu trabalho de Marceneiro. A minha avó só trabalhava em casa nas lides domésticas. Tinham criado 5 filhos e quando isto sucedeu apenas 2 filhas, já adultas, viviam com eles. Não era pois fácil dispor de dinheiro para tapar o buraco feito para salvar de morte certa daquele homem.


Quinze dias depois do salvamento o homem continuava a trabalhar como se nada fosse e não dirigia palavra ao meu avô, como se nada se houvesse passado. O meu avô via-o todos os dias pelo buraco que tinha feito para o salvar e que continuava aberto, bem no meio da cozinha. Então, o meu avô, um pouco pressionado pela mulher e muito pelos filhos, decidiu ir falar com o homem.


A conversa do meu avô com o homem teria sido mais ou menos assim:


O meu avô - Meu caro senhor eu peço desculpa de o incomodar, mas venho pedir-lhe para me ajudar com alguma coisa nas despesas para tapar o buraco. Já passaram quinze dias e...


O homem - Ajudar com quê? A casa não é minha!


O meu avô - Sim… Mas… Eu fiz o buraco por sua causa. Para o salvar.


O homem - Fez o buraco porque quis. Eu não lhe pedi nada.


A conversa terminou, o meu avô tapou o buraco a expensas próprias, nunca mais falou ao homem e nunca mais falou do assunto.


O meu avô não queria uma recompensa por ter salvo a vida daquele homem. Queria apenas uma ajuda. Não sei, porque nunca perguntei ao meu avô, se a sua crença no ser humano tinha sido abalada e se, em situação semelhante, voltaria a sacrificar o seu parco património para salvar outro homem.


CRÉDITOS:

1ª Foto – Autoria de Eduardo Portugal em “Lisboa de Antigamente”.

2ª Foto – Autor desconhecido e obtida no espaço da J. F. de Arroios.

3ª Foto – Autor desconhecido e obtida no espaço da J. F. De Arroios.

4ª Foto - Autoria de Eduardo Portugal em “Lisboa de Antigamente”.




segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

CONTRIBUTO PARA A FALTA DE ÁGUA NO ALGARVE

 

Imagem obtida em “Nossa duvida”


CONTRIBUTO PARA A FALTA DE ÁGUA NO ALGARVE

(O texto e as imagens podem perturbar as pessoas mais sensíveis)


Um amigo, autocaravanista como eu, deu-me a conhecer uma nova abordagem de sanitas químicas que não usam água, nem químicos, o que constitui um significativo contributo para a ambiente.

Os vídeos, embora apresentados em inglês, permitem uma relativa compreensão através da visualização das imagens. Contudo, permito-me dar uma muito breve explicação.

Este sistema permite, no máximo, 36 defecações consoante a quantidade das fezes em cada defecação.

A cada defecação o mecanismo sela num saco as fezes, conforme se vê nas imagens, e prepara o sistema para a próxima defecação.

Os sacos de cada defecação caiem para um depósito sendo depois retirados manualmente e colocados num caixote de lixo para poderem ser incinerados.

O custo deste sistema anda pelos 1250 euros.


1º VÍDEO


2º VÍDEO



quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Dia Internacional do OBRIGADO

 

Imagem obtida em “Conhecimento Científico”


Dia Internacional do OBRIGADO


Hoje, dia 11 de Janeiro, tem lugar o DIA DO OBRIGADO.

Sabe que pode agradecer em várias línguas?


Albanês – Faleminderit

Alemão – Danke

Árabe – Shukran

Búlgaro – Blagodaria

Castelhano – Gracias

Coreano – Gamsahamnida

Dinamarquês – Tak

Eslovaco – Dakujem

Finlandês – Kiitos

Francês – Merci

Grego – Sas eucharistoume

Havaiano – Mahalo

Holandês – Dank u

Indonésio – Terima kasih

Inglês – Thank You

Islandês – Takk

Italiano – Grazie

Japonês – Arigatô

Libanês – Choukrane

Maltês – Grazzi

Romeno – Va Multumesc

Russo – Spasibo

Sueco – Tack

Turco – Tesekkür ederim

Ucaniano – Spasbi


No entanto, só numa língua, o agradecimento é feito ao nível mais profundo:


O OBRIGADO em português